sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Aforismos 6

-> Um abandono inexorável - Aquele que necessita criar uma verdade, igualmente necessita abandoná-la logo após, pois corre o risco de padecer sob o peso de sua criação e perder a alegria. O criador da verdade deve deixá-la para que permaneça alegremente leve para assim criar mais verdades.

-> O peso imposto, mas falível - A crença da verdade é uma crença auto impingida pois se tem a necessidade de ocultar as próprias falhas das lacunas desta crença: causa rubor e ira constatar que esta fragilidade é muitas vezes desnudada e percebida. Sendo a crença falível, a verdade se decompõe.

-> A ação do credor - Depois de uma certa idade, até na sede aparecem os arrependimentos.

-> Humanização e desumanização - Desde a escrita, foi empreendida a humanização da vida pela supremacia do homem, o animal racional. Nesses dias, presenciamos o movimento contrário pela criação da inteligência artificial como se o homem, depois de experimentar as suas capacidades, agora se dá o luxo da desumanização ao deixar um espectro seu como responsável por suas ações.

-> Um risco para a filosofia - sendo a filosofia uma atividade restritamente humana, corre ela talvez o risco de sucumbir na mão da artificialização da inteligência patrocinada pela ciência.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Aforismos 5

-> A exigência de bem ler - Bem ler e bem beber equivalem: bons vinhos prescindem de boa maturação. O que mal se lê, mal se escreve, assim como a má bebida agride o paladar. Palavras bem lidas são um chocolate para a boca.

-> A roupa digna - Palavras bem pensadas e bem escritas não podem ser dignas de um papel se ainda não forem vestidas.

-> O inimigo legítimo - Só é um inimigo legítimo aquele que não aniquila no início do combate, mas demonstra habilidade com suas armas.

-> O defeito brasileiro - O brasileiro não procura o novo em outro país, mas o exótico de si que deseja ver no outro.

Aforismos 4

-> Nosso tabu - O que calamos é, muitas vezes, assunto que nós mesmos não suportamos pensar e falar.
-> A vocação e a surdez - Quem tem vocação se obriga a ser surdo: o grito vem de dentro.
-> O mal professor - O bem pode aprender com o mal: ele não é obrigado a ser burro.
-> O ciúme pelo tabu - Maldizemos aquele que tem a coragem e a audácia de abalar os nossos tabus.
-> A medida do jornalismo - A atualização jornalística é necessária na medida em que não sabemos de nossas capacidades. Enfim, a nossa covardia nos impede.
-> Da vocação - A munição da vocação é responsabilidade da alma.

Aforismos 3

-> Do afastamento - O afastamento só não é saudável quando é uma prisão que nos afasta.
-> O insólito na doença - A lucidez que promove a desilusão provém da doença: a sua dor nos faz sentir tudo o que a vida dispõe desde outros tempos. Só com a lucidez da dor somos capazes de gritar: Chega! Basta do mesmo! Há outro futuro que me exige!
-> A covardia no absurdo - Crê porque é absurdo? Quanta coragem falta. O absurdo não resiste a um desafio sem apelação.
-> O engano do sim e do não - A expectativa do sim prende mais que o obstáculo do não, já que este possibilita novas conjecturas.
-> A peneira e o sol - O que a boca não confessa, os olhos demonstram. Por isso não ouve aquele que reflete pelos olhos.

Aforismos 2

-> Semelhanças americanas - Em que consiste a semelhança da pátria do norte com o Brasil? Me parece que não existe possibilidade de êxito, pelo que se percebe das sociedades, fora deles. São os melhores.
-> O orvalho da doença - Aqui, com a doença da delicadeza, tenho este orvalho que me mantém esperando: ninguém nas montanhas.
-> Notas da âncora - O que tenho, guitarra mansa? Responde à minha sede de andança.
-> Infusão necessária - A lucidez (a doença da delicadeza), não tem também um gosto agradável depois de seu tempo de repouso, dizem talvez os adoçadores da vida.
-> Para que não se engane - A felicidade nos tira da dimensão na qual entramos pela tristeza.
-> Choro pelo poder - Chora mais quem pode mais.

Aforismos 1

-> Perigo iminente - Um evanjegue que estuda teologia, pode? Ainda bem que a filosofia não corre este risco. Ele não entende nenhuma das duas.
-> Sempre o desejo de poder - A bajulação é a conquista por meio da submissão, mas o conquistador, devido a sua condição subalterna, é incapaz de perceber.
-> Condenação e obrigação - O homem é condenado a ser livre, mas não é (ou não deveria ser) obrigado a ser feliz.
-> A minha escolha - É preferível a tristeza na liberdade que o conforto na prisão.
-> Uma diferença - A mediocridade gruda e a altivez é uma imposição natural.
-> Excentricidade do filósofo - O sol é a estrela da lucidez.